28 agosto 2021

06 agosto 2021

Os sapatos do casamento


Ela nunca pensou casar-se. Quanto mais em Agosto. E, em tempo algum, a 10. Esse era, invariavelmente, o seu número na escola e um dos seus da sorte, portanto na sua ideia não poderia ser associado a um casamento. Contudo, tendo ele a vida em risco, não se sabendo de antemão se uma das muitas de gato ou das escassas de jogo de ecrã, ela lá cedeu ao compromisso. Estavam juntos há tanto tempo, esta seria apenas mais uma aventura. Poderia até ser uma das suas últimas vontades. Quem era ela para a sacrificar por capricho de miúda crescida nos anos 80 ou por perturbação somente explicada por psicoterapeuta.

O casamento só levou os dois — ambos de roupa informal em tons de azul: ele num tom mais escuro, ela a fugir para o petróleo — e, perante o espanto da conservadora, ela soltou um sincero até já somos demais. A cerimónia foi de manhã, porque é aí que começa o dia e não há tempo para elaboradas reflexões. Fez-se e está feito, e, de seguida, foram almoçar. Como ninguém sabia, não houve convidados. Encheram os dois a barriga num restaurante que já não existe, mas tinha fama com bom proveito. Ela bebeu vinho, ele bebeu a água que a doença permitia. Dividiram a sobremesa e a conta, pois, nesse tempo, ainda havia nela a vaidade de ter os seus cartões.

Do acontecimento não restam senão duas fotografias desengraçadas. Uma não se publica porque é do foro privado, mas a outra, aquela que aqui se partilha, tem uma natureza documental: são os sapatos do casamento dançando uma dança sem dançarinos.

Isto faz agora 14 anos. E ela lembra-se, não porque seja romântica — provavelmente, é a criatura menos romântica num raio de 800 quilómetros  — mas porque, mais ou menos há um ano atrás, lhe entregaram, uma vez mais, a aliança dele, no hospital. Naquele tom grave e solene que só quem passou pelo mesmo sabe reconhecer. Ela enfiou o anel no bolso das calças, ali ficou esquecido, foi lavado à máquina e pendurado na corda, onde permaneceu uns dias nesses tempos ansiosos. Quando percebeu o quanto essa aliança, teimosa, se tinha agarrado ao velho forro descolorado, ela soube que talvez ainda houvesse vidas para o gato.

Enxotadas as moscas porque não houve carcaça, ele por aí anda, resistente, a arriscar-se novamente aos telhados. Sem aliança, porém. Emagreceu muito e de que lhe serve o aro de ouro, afinal? O amor quando é amor não precisa de ser medido em quilates. E, verdade seja dita, ela pouco uso deu à sua. Perdeu-a, inexplicavelmente, poucos meses após o casamento. Nunca pensou substituí-la: o brilho do ouro novo no dedo ofuscava-a como um peixe ao candeio.

01 junho 2021

Falésia

Sem Atlântico
azul, cinzento
espelhando um céu veloz
galgando espumoso falésias angulosas
vigiadas por gaivotas
sem medo dos marítimos rugidos
não sou.

22 abril 2021

06 fevereiro 2021

49

Uma vez bebi lexívia.
Cheguei a casa de uma tarde de brincadeira e estava uma chávena em cima do balcão com um líquido amarelinho — um inocente chá de limão.
Cuspi tudo, claro. E estraguei a roupa e o tapete da cozinha.
A minha mãe riu-se.
E o riso espontâneo, traquina, limpou-a da culpa.

04 fevereiro 2021

23 julho 2020

Teremos mais Julhos, sim, amor

Farol pequeno.
Areal grande.
Caminhar.
Pés na água.
Marcas dos calções nas pernas.
Marcas das camisolas nos braços.
Peixe ao almoço.
Sestas.
Lua a aparecer.
Gaivotas.
Andorinhas.
Água e vinho.
Cerejas.
Risos.